
O Monstro de 21 Faces: O Mistério Não Resolvido Mais Elaborado do Japão
O Monstro de 21 Faces manteve a indústria alimentícia japonesa refém com sequestros, incêndios criminosos e balas de cianeto. 125 mil suspeitos investigados. Nunca foram pegos.
Na noite de 18 de março de 1984, a história do crime japonês foi alterada para sempre. Dois homens mascarados, armados com pistola e rifle, invadiram a residência de Katsuhisa Ezaki, presidente da empresa de doces Glico. Amarraram sua família, cortaram as linhas telefônicas e sequestraram Ezaki nu da banheira. Exigiram resgate de um bilhão de ienes e cem quilogramas de ouro em barra.
Era o início do Caso Glico-Morinaga, uma campanha de terror que duraria 17 meses, envolveria o envenenamento de produtos de consumo e levaria à vergonha pública e ao suicídio de um delegado de polícia. Ainda assim, apesar de uma investigação que consumiu mais de um milhão de horas de trabalho e investigou 125 mil suspeitos, o grupo por trás disso, conhecido como "O Monstro de 21 Faces", desapareceria sem deixar rastro, legando um mistério que permanece sem solução mais de quarenta anos depois.
O Vilão Mutante
O grupo adotou o nome de um vilão metamorfo dos romances policiais de Edogawa Rampo. Como seu homônimo, eles pareciam estar em todo lugar e em lugar nenhum ao mesmo tempo. Depois que Ezaki conseguiu escapar de seus captores três dias após o sequestro, o grupo não parou. Ao contrário, escalou.
Começaram a enviar cartas à polícia e à imprensa, provocando-as com uma mistura de arrogância e humor negro. Escritas num dialeto característico de Osaka e usando uma máquina de escrever que nunca foi rastreada, as cartas zombavam dos policiais "estúpidos" e forneciam pistas que não levavam a lugar algum. Uma carta dizia: "Queridos policiais burros. Não mintam. Todo crime começa com uma mentira, como dizemos no Japão. Vocês não sabem disso?"
Os Doces Envenenados
As táticas do grupo passaram de sequestro para extorsão corporativa. Eles atacaram a Glico, ateando fogo em veículos da empresa e enviando recipientes de ácido clorídrico para seus escritórios. Em maio de 1984, deram um passo aterrorizante: afirmaram ter contaminado balas da Glico com cianeto de potássio e as colocado nas prateleiras das lojas.
O pânico resultante foi total. A Glico foi forçada a retirar todos os seus produtos das prateleiras em todo o Japão. As ações da empresa despencaram e ela perdeu mais de US$ 130 milhões em vendas, levando à demissão de centenas de trabalhadores. Embora nenhuma bala da Glico envenenada tenha sido de fato encontrada nessa fase, o dano econômico e psicológico estava feito.
Então, tão subitamente quanto começaram, o grupo enviou uma carta "perdoando" a Glico. "O presidente da Glico já andou com a cabeça baixa por tempo suficiente," escreveram. "Gostaríamos de perdoá-lo." Mas não haviam terminado com a indústria alimentícia japonesa. Voltaram sua mira para outros gigantes: Morinaga, Marudai Food e House Food Corporation.
O Homem de Olhos de Raposa
Em outubro de 1984, o Monstro de 21 Faces enviou cartas endereçadas às "Mães da Nação", avisando que 20 embalagens de doces Morinaga haviam sido contaminadas com cianeto de sódio. Desta vez, não era blefe. A polícia encontrou várias caixas de chocolate Morinaga nas lojas com avisos colados: "Isto tem veneno. Se você comer, vai morrer." Testes confirmaram a presença de doses letais de cianeto.
A polícia estava desesperada. Focou em dois suspeitos principais com base em imagens de câmeras de segurança e testemunhos. O primeiro era o "Homem Filmado em Vídeo", flagrado numa câmera de supermercado usando um boné do Yomiuri Giants enquanto colocava chocolate da Glico numa prateleira. O segundo, e mais lendário, era o Homem de Olhos de Raposa.
Durante uma entrega de resgate frustrada num trem, um investigador avistou um homem que parecia monitorar a polícia. Ele foi descrito como tendo "olhos de raposa" e físico esguio e atlético. Esse homem quase foi capturado durante uma perseguição em alta velocidade em novembro de 1984, mas conseguiu desaparecer na noite, deixando para trás um carro roubado e um scanner de rádio policial.
O Fim Trágico
A pressão sobre a polícia japonesa era imensa. A população estava apavorada, a economia tremendo e os criminosos davam risada na imprensa nacional. Em agosto de 1985, a tensão se tornou insuportável para Shoji Yamamoto, delegado de polícia da Prefeitura de Shiga. Profundamente envergonhado pelo fracasso de sua equipe em capturar o Homem de Olhos de Raposa durante a perseguição de carro, Yamamoto cometeu suicídio por autoimolação no próprio jardim.
O Monstro de 21 Faces enviou uma última carta cinco dias depois. Num arrepiante exibicionismo de seu estranho código de conduta, zombou da morte de Yamamoto mas também declarou o fim de sua campanha:
"Yamamoto da Polícia da Prefeitura de Shiga morreu. Que estupidez! Não temos amigos nem esconderijo em Shiga. São Yoshino ou Kuyama quem deveriam ter morrido. O que eles fizeram durante um ano e cinco meses? Não deixem bandidos como nós escapar impunes... Decidimos parar de atormentar as empresas alimentícias. Se alguém chantagear alguma empresa alimentícia, não somos nós, mas alguém nos copiando. É divertido levar uma vida de mau."
Com isso, o Monstro de 21 Faces desapareceu.
Um Mistério Para Sempre
O prazo de prescrição para os crimes expirou em 2000, o que significa que os perpetradores nunca poderão ser processados, mesmo que sejam identificados hoje. As teorias sobre a identidade do grupo variam de ex-funcionários insatisfeitos até a yakuza, ou até mesmo uma agência de inteligência estrangeira. Alguns acreditam que eram um grupo de radicais de esquerda, enquanto outros acham que eram simplesmente gênios entediados jogando um jogo de apostas altíssimas.
O Caso Glico-Morinaga mudou o Japão. Expôs vulnerabilidades na cadeia produtiva do país e mostrou como um grupo pequeno e bem organizado poderia manter uma sociedade inteira como refém. Hoje, o caso é lembrado como um lembrete assombrado de uma época em que um "monstro" de muitas faces burlou uma nação e depois foi embora, deixando para trás apenas cartas provocadoras e um rastro de perguntas.
Para outros casos em que o perpetrador desapareceu sem deixar rastro, veja o desaparecimento de Harold Holt e o Mistério do Farol de Flannan Isles.
Respostas Rápidas
Perguntas frequentes sobre este tema
Quem era o Monstro de 21 Faces?
O Monstro de 21 Faces (Kaijin Nijuichi Menso) foi um grupo criminoso misterioso que conduziu uma campanha de 17 meses com sequestros, extorsão, incêndios criminosos e ameaças de envenenamento de produtos contra empresas alimentícias japonesas a partir de março de 1984. Sequestraram o presidente da Glico, Katsuhisa Ezaki, e depois passaram a ameaçar com envenenamento e exigir resgates de várias gigantes de confeitaria, causando enormes prejuízos à indústria alimentícia do Japão.
O que foi o Caso Glico-Morinaga?
O caso consistiu em uma série de ataques às empresas de doces Glico e Morinaga. Em maio de 1984, o grupo avisou que havia contaminado os doces da Glico com cianeto de potássio, forçando a empresa a retirar todos os produtos das prateleiras em todo o país — resultando em prejuízos de cerca de US$ 130 milhões em vendas e 450 demissões. Em outubro, eles de fato colocaram chocolates Morinaga contaminados com cianeto em prateleiras de lojas.
Quem era o Homem de Olhos de Raposa?
O Homem de Olhos de Raposa era um indivíduo suspeito descrito como tendo cerca de 40 anos, físico esguio e atlético e olhos distintivamente parecidos com os de uma raposa, que apareceu durante tentativas fracassadas de entrega de resgate em junho e novembro de 1984. Apesar de uma operação policial montada para interceptá-lo durante uma perseguição em alta velocidade, ele escapou para uma área arborizada. Nunca foi identificado com certeza ou capturado, e permanece como a figura mais icônica do caso.
Por que o Monstro de 21 Faces parou?
Shoji Yamamoto, delegado de polícia da Prefeitura de Shiga, era responsável pela operação fracassada contra o Homem de Olhos de Raposa. Incapaz de conviver com o fracasso percebido, Yamamoto ateou fogo a si mesmo em 7 de agosto de 1985 e morreu em decorrência dos ferimentos. O Monstro de 21 Faces enviou sua última carta zombeteira cinco dias depois e então cessou toda comunicação, permanentemente.
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