
Guia do Viajante do Tempo para Edo Tokyo, 1700
Sobreviva e prospere na maior cidade do mundo durante a era dourada de paz do Japão — etiqueta samurai, comida de rua, cultura dos banhos públicos e como não ser executado.
Guia do Viajante do Tempo para Edo Tokyo, 1700
Bem-vindo a Edo — a cidade que o Ocidente ainda não sabe que existe. Com mais de um milhão de habitantes, é indiscutivelmente a maior cidade da Terra neste momento, maior do que Londres ou Paris. O shogunato Tokugawa mantém o Japão fechado ao mundo exterior há décadas e, honestamente? O lugar está prosperando por causa disso. Veja como sobreviver à sua visita sem cometer acidentalmente um crime capital.
Inventando uma história convincente
O Japão está em pleno regime de sakoku (país fechado). Estrangeiros são essencialmente ilegais. Sua melhor aposta é se passar por um comerciante de Osaka — as diferenças de sotaque são perceptíveis, mas as pessoas vão atribuir sua fala estranha ao fato de você ser do interior. Chegar de barco pelo Rio Sumida é menos conspícuo do que entrar a pé por um dos postos de controle nas cinco grandes estradas imperiais.
Faça o que fizer, não afirme ser cristão. O shogunato erradicou o cristianismo com extrema crueldade. Se alguém lhe oferecer uma placa de bronze com a imagem da Virgem Maria e pedir para você pisá-la (fumie), pise com entusiasmo.
O que vestir
A roupa revela sua classe social instantaneamente, e se vestir acima da sua posição é crime punível.
Escolhas seguras: Um kimono simples de algodão em azul-escuro ou marrom com um obi liso. Geta de madeira para tempo seco, sandálias de palha waraji para percursos mais longos. Os homens devem raspar a parte superior da cabeça e prender o cabelo restante no coque chonmage — isso não é opcional se você quiser se misturar à população.
O que evitar: Sedas brilhantes e estampas elaboradas são reservadas para a próspera classe dos comerciantes (que são tecnicamente o estrato social mais baixo, mas na prática os mais ricos). Qualquer coisa em vermelho ou roxo grita "olhem para mim" de um jeito que você não quer. Nunca, jamais, carregue uma espada a menos que seja samurai. Duas espadas, especificamente — uma longa, uma curta. Usá-las sem autorização é caminho certo para a execução.
Regras sociais que vão salvar sua vida
O sistema de classes aqui não é uma sugestão. De cima para baixo: samurais, agricultores, artesãos, comerciantes. Na prática, são os comerciantes que movem a economia, mas fingir o contrário mantém todos vivos.
Reverências: Quando uma procissão de samurais passar, saia da estrada e faça uma reverência. Funda. Se um daimyo (senhor feudal) e seu séquito aparecerem, ajoelhe-se e pressione a testa no chão. Os samurais têm tecnicamente o direito de kirisute gomen — permissão para abater qualquer plebeu que os desrespeite. Raramente é exercido, mas "raramente" não é "nunca".
Calçados: Tire-os antes de entrar em qualquer edificação. Qualquer uma. Sem exceção. O limiar entre o exterior e o interior é sagrado.
Hashis: Nunca fique com eles espetados verticalmente no arroz (ritual funerário). Nunca passe comida de hashi em hashi (também ritual funerário). Basicamente, qualquer coisa que lembre cerimônias fúnebres vai esvaziar uma sala rapidamente.
O que comer
A culinária de rua de Edo é espetacular. A cidade praticamente inventou a cultura do fast food porque uma grande parte de seus habitantes são homens solteiros (o sistema sankin-kōtai faz com que os samurais revezem entre Edo e suas províncias de origem, frequentemente sem a família).
Imperdíveis:
- Sushi — mas não o que você está imaginando. O sushi do período Edo é hayazushi — arroz temperado com vinagre coberto com peixe, prensado em moldes. É maior, mais parecido com um bolinho de arroz com peixe por cima. Absolutamente delicioso.
- Macarrão soba — macarrão de trigo-sarraceno servido quente ou frio. Sorver com barulho não é só aceitável, é esperado. Resfria o macarrão e demonstra apreciação.
- Tempurá — missionários portugueses introduziram a fritura em massa antes de serem expulsos, e o Japão a aperfeiçoou. Vendedores ambulantes vendem tempurá de legumes e camarão em espeto.
- Enguia — enguia de água doce grelhada, glaceada com molho de soja adocicado. Considerada essencial para a disposição, especialmente no verão.
Evite: A carne é tecnicamente tabu (influência budista), embora as pessoas comam discretamente javali selvagem e o chamem de "baleia da montanha" (yama kujira). Não faça muitas perguntas sobre as "farmácias" que vendem carnes secas misteriosas.
Em termos de bebida, o saquê está em todo lugar e varia do grosseiro ao refinado. O chá é a escolha sofisticada. A água dos poços públicos é geralmente segura — a infraestrutura hídrica de Edo é genuinamente impressionante, com um sistema de aquedutos de madeira que abastece a cidade.
O que visitar
Ponte Nihonbashi — o centro literal do Japão. Todas as distâncias do país são medidas a partir deste ponto. O mercado de peixe aqui (ancestral do Tsukiji) é um caos ao amanhecer — centenas de vendedores, o fruto do mar mais fresco que você já vai provar, e barulho suficiente para despertar os mortos.
Yoshiwara — o bairro do prazer licenciado, cercado por muros nos charcos ao norte. É ao mesmo tempo um distrito de entretenimento, um polo cultural e uma tragédia humana. As oiran de maior prestígio são celebridades — poetisas, músicas, ícones de moda. Mas o sistema funciona com base em servidão por dívida, e as mulheres das categorias mais baixas enfrentam condições genuinamente sombrias. Vá ao teatro de kabuki próximo se quiser entretenimento sem o peso moral.
Templo Sensō-ji — o enorme complexo budista de Asakusa. A rua Nakamise, que leva até ele, é ladeada por vendedores de brinquedos, doces e lembranças. Parece notavelmente um parque temático turístico, só que é 1700.
Casas de banho públicas (sentō) — centros sociais onde as barreiras de classe se dissolvem temporariamente. Esfregue-se bem antes de entrar na banheira coletiva. A água vai estar chocantemente quente. Os banhos mistos ainda são comuns em 1700, embora o shogunato viva ameaçando proibi-los.
Perigos
Incêndios. Edo é construída quase inteiramente de madeira e papel. Grandes incêndios varrem a cidade regularmente — os moradores os chamam com humor negro de "as flores de Edo". O Grande Incêndio de Meireki, em 1657, matou mais de 100 mil pessoas e destruiu metade da cidade. Conheça suas rotas de fuga. Ruas largas e rios são seus corta-fogos.
Terremotos. A região de Kantō fica sobre múltiplas falhas geológicas. Os edifícios são projetados para dobrar em vez de resistir, mas os efeitos secundários — incêndios, inundações — são os verdadeiros assassinos.
A lei. As punições são severas e públicas. Roubo pode resultar em execução. Incêndio criminoso definitivamente resulta em execução (pela fogueira, naturalmente). O sistema de vigilância de bairro (goningumi) torna cinco domicílios coletivamente responsáveis pelo comportamento uns dos outros. Seus vizinhos são literalmente incentivados a denunciá-lo.
Perder-se. O traçado de Edo é deliberadamente confuso — os Tokugawa o desenharam como um labirinto defensivo. As ruas fazem curvas, chegam a becos sem saída e retornam sobre si mesmas. O castelo fica no centro em uma espiral de fossos. Carregue um mapa impresso em xilogravura e aprenda a se orientar por pontos de referência, não por nomes de ruas (a maioria delas não tem nome).
Dinheiro
O sistema monetário é belamente complicado. Moedas de ouro koban para grandes transações, prata bu para valores médios, cobre mon para compras do dia a dia. Uma tigela de soba custa cerca de 16 mon. Uma noite em uma estalagem decente sai por 200 mon. As taxas de câmbio entre ouro, prata e cobre flutuam constantemente, razão pela qual os cambistas de Edo estão entre as pessoas mais ricas da cidade.
Seu melhor dia em Edo
Acorde ao amanhecer. Vá a Nihonbashi para o caos do mercado de peixe. Coma enguia grelhada no café da manhã (confie em mim). Passeie pelos distritos comerciais de Nihonbashi-dori, folheie as livrarias que vendem gravuras ukiyo-e em xilogravura. Cerimônia do chá à tarde se conseguir um convite — caso contrário, vá a um sentō. À noite, assista a um espetáculo de kabuki num dos teatros Nakamura-za. As apresentações duram o dia todo, mas as da noite têm a melhor energia. Termine a noite em um izakaya à beira do rio com saquê e tempurá, observando as lanternas se refletindo no Rio Sumida.
Só lembre: faça reverência aos samurais, tire os sapatos e, pelo amor de tudo que é sagrado, não espete os hashis verticalmente no arroz.
Boa viagem, viajante do tempo. Edo está esperando.
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