
Rasputin e os Romanov: O Que Ele Realmente Fez na Corte
Rasputin nunca ocupou cargo no governo. Veja o que os registros mostram sobre o que ele realmente fez na corte dos Romanov e onde a lenda do monge louco assume o controle.
Grigori Rasputin nunca se sentou em nenhum conselho de governo, nunca ocupou um título ministerial e nunca assinou um único documento de Estado. A memória popular o transformou no homem que secretamente governava a Rússia, um místico hipnótico puxando os fios por trás do trono enquanto o império ardia. A história real é mais restrita e, à sua maneira, mais estranha: um camponês siberiano quase analfabeto, sem cargo formal algum, conquistou influência informal suficiente sobre uma imperatriz ansiosa a ponto de remodelar quem detinha o poder no governo russo, simplesmente por ser confiável numa sala que outros não conseguiam adentrar.
A corte e o que estava em jogo
Quando Rasputin chegou a São Petersburgo, em meados da década de 1900, a dinastia Romanov já governava a Rússia havia três séculos como uma autocracia que não admitia nenhum freio real à autoridade do czar. Nicolau II herdou esse sistema sem ter o estômago que seu pai tinha para exercê-lo. Era indeciso, facilmente influenciado por quem falasse com ele por último, e casado com Alexandra, uma princesa alemã criada na Inglaterra cuja devoção ortodoxa resvalava para o misticismo sob pressão.
E a pressão era grande. Alexei, o único filho e herdeiro do casal, tinha hemofilia, uma condição que tornava contusões infantis comuns potencialmente fatais e para a qual os médicos da corte daquela época pouco podiam fazer. Toda a sucessão da dinastia dependia de um menino que poderia morrer de uma simples queda. Some-se a isso a tensão da Primeira Guerra Mundial, que a Rússia vinha perdendo feio a partir de 1915, e a corte imperial virou uma panela de pressão: um herdeiro frágil, uma guerra indo mal e um monarca cada vez mais ausente da capital.
Os personagens
Rasputin chegou à capital já carregando a reputação de um starets errante, uma figura leiga de intensidade espiritual fora da hierarquia formal da igreja. Ele foi apresentado ao casal imperial por volta de 1905, ao que consta por meio de duas grã-duquesas nascidas em Montenegro com seu próprio gosto pelo misticismo, que acharam que ele poderia ser exatamente o que a desesperada Alexandra precisava.
E era. Durante ao menos uma crise grave de sangramento, principalmente no pavilhão de caça imperial em Spala, em 1912, o estado de Alexei pareceu melhorar depois da intervenção de Rasputin, seja acalmando o menino, seja por meio de algum conselho que por acaso evitava o efeito anticoagulante da aspirina, seja por mecanismos que os historiadores ainda debatem. Seja qual fosse o motivo, a fé de Alexandra nele se tornou total e, o que é crucial, foi muito além da medicina.
Ao redor deles havia uma corte cheia de gente que queria vê-lo longe: ministros do governo que ressentiam a influência de um estranho, clérigos ortodoxos que desconfiavam de sua autoridade não ordenada, e políticos da Duma que o viam como símbolo de tudo que havia de podre na autocracia. O primeiro-ministro Piotr Stolypin tentou investigá-lo e afastá-lo da capital por volta de 1911, mas foi contrariado. O assassinato de Stolypin, mais tarde naquele mesmo ano, sem qualquer relação com Rasputin, eliminou um dos poucos funcionários dispostos a enfrentá-lo diretamente.
O que ele realmente fazia na corte
É aqui que o registro documentado e a lenda mais se afastam, porque o que Rasputin realmente fazia era surpreendentemente burocrático. Ele recomendava pessoas. Alexandra ouvia. Nicolau, especialmente depois de 1915, quando deixou São Petersburgo para assumir o comando pessoal do exército na frente de batalha, muitas vezes se curvava ao julgamento da esposa sobre nomeações internas, por carta.
Boa parte da rotina diária de Rasputin na corte não tinha nada de dramático. Seu apartamento na rua Gorokhovaya virou uma sala de espera para peticionários: comerciantes atrás de contratos, famílias buscando isenção do serviço militar, funcionários menores em busca de promoção, todos na esperança de que um bilhete rabiscado por Rasputin ao ministro certo pudesse fazer seus casos avançarem. Os registros de vigilância da Okhrana descrevem um fluxo constante de visitantes, e vários funcionários mais tarde testemunharam que um bilhete ou uma palavra de Rasputin realmente tinha peso, precisamente porque todos na corte sabiam que ele tinha os ouvidos de Alexandra. Era menos feitiçaria e mais uma rede informal de favores, funcionando a partir de reputação e favores pessoais, e não de qualquer cargo que ele ocupasse.
O padrão mais claramente documentado é o que os contemporâneos chamavam de a dança das cadeiras ministerial: uma rotatividade rápida de primeiros-ministros e ministros do interior durante os anos de guerra, vários dos quais historiadores e críticos da Duma da época associavam ao favor ou desagrado de Rasputin, transmitido pela correspondência de Alexandra com Nicolau. Alexander Protopopov, nomeado ministro do interior em 1916, era amplamente entendido na corte como parte do círculo de Rasputin. No lado eclesiástico, vários bispos, incluindo Pitirim, que se tornou metropolita de Petrogrado, deviam parte de sua ascensão ao apoio de Rasputin, um fato que escandalizava o clero, que considerava um camponês não ordenado uma figura inadequada para fazer e desfazer nomes na igreja.
Nada disso fazia de Rasputin um formulador de políticas. Ele não redigia leis, não participava de reuniões de gabinete e não comandava nenhuma instituição. O que ele tinha era acesso: os ouvidos de Alexandra e, por meio dela, um canal direto ao trono que contornava todo filtro normal de aconselhamento ministerial. Num sistema tão centralizado, esse canal, por si só, já bastava para fazer ou destruir carreiras.
Ele também esteve, a partir de cerca de 1912, sob vigilância quase constante da Okhrana, a polícia secreta imperial, que registrava relatórios diários detalhados sobre seus visitantes, sua bebedeira e seus deslocamentos. Esses arquivos estão entre as melhores fontes primárias que os historiadores têm sobre sua vida cotidiana real na corte, e mostram um homem lidando com pedintes de favores, peticionários e mulheres da sociedade, e não arquitetando grandes estratégias.
A fofoca contra os registros
É aqui que as duas versões de Rasputin se separam de forma mais clara.
A fofoca dizia que ele estava tendo um caso com a própria imperatriz Alexandra. Os registros não sustentam isso. O que sobreviveu foram as cartas de Alexandra a ele, de tom profundamente devocional, endereçadas a um guia espiritual em quem ela acreditava poder salvar seu filho, não a um amante. Essas cartas se tornaram públicas em parte por esforço de Sergei Trufanov, um ex-monge conhecido como Iliodor, que um dia apoiara Rasputin e depois se voltou amargamente contra ele, publicando um livro de memórias que, ao que consta, incluía cópias da correspondência. Os historiadores que estudaram as cartas geralmente as leem como angústia religiosa sincera, transformada em arma por inimigos que sabiam exatamente o quão prejudicial ela pareceria fora de contexto.
A fofoca dizia que Rasputin promovia orgias regadas a bebida como coisa rotineira. Os registros incluem ao menos um episódio específico e documentado: uma noite de março de 1915 no restaurante Yar, em Moscou, em que Rasputin, embriagado, se gabava aos gritos de sua influência sobre "a velha senhora" na corte, diante de um agente policial disfarçado cujo relatório sobreviveu. Esse único incidente, verificado, causou um dano enorme à sua reputação e à da coroa, justamente porque era real e porque foi uma das poucas vezes em que a fofoca e o registro documental coincidiram.
A fofoca dizia que ele era um feiticeiro cujo corpo resistia à morte, envenenado, baleado três vezes e ainda vivo quando foi jogado no rio congelado. Essa parte vem quase inteiramente das memórias posteriores do próprio Félix Yusupov, escritas depois dos fatos por um homem com todo interesse em tornar sua própria história mais dramática. A autópsia original não sobreviveu intacta, e historiadores forenses modernos que examinaram o que restou do registro são céticos de que ele prove claramente que Rasputin ainda respirava quando seu corpo foi jogado por um buraco aberto no gelo do rio Malaya Nevka, em dezembro de 1916.
As consequências
Rasputin foi assassinado na noite de 16 para 17 de dezembro de 1916, por um pequeno grupo que incluía Yusupov, um aristocrata casado com um ramo da família imperial estendida, o grão-duque Dmitri Pavlovich, um deputado da Duma chamado Vladimir Purishkevich, e um médico que forneceu o veneno que, segundo a maioria dos relatos, não funcionou como o esperado. Quando o veneno falhou, Rasputin foi baleado, ao que consta enquanto fugia para o pátio, antes de Purishkevich derrubá-lo. Seu corpo foi recuperado do rio dias depois.
Os assassinos esperavam gratidão. O que receberam foi exílio em suas próprias propriedades, já que Nicolau não conseguiu se convencer a processar um membro de sua família estendida e um oficial militar em atividade, e a simpatia pública pelos assassinos foi alta em toda a sociedade russa, um sinal revelador de o quanto a presença de Rasputin na corte havia envenenado a reputação da monarquia. Isso não salvou a dinastia. Poucos meses depois, a revolução forçou Nicolau a abdicar, e o poder informal que Rasputin exercera por meio de uma única imperatriz confiante desapareceu junto com o trono que o abrigava.
A lenda do monge louco sobrevive porque é uma história melhor do que a de um camponês siberiano reorganizando calmamente a burocracia de Petrogrado por meio de cartas amigáveis. Mas o registro documentado, as nomeações ministeriais, os arquivos de vigilância da Okhrana e a própria correspondência devocional de Alexandra, conta uma versão que é, sem dúvida, mais perturbadora: nenhuma feitiçaria necessária, apenas a confiança de uma mãe exausta e um sistema sem nenhuma salvaguarda contra onde ela escolhia depositá-la.
Respostas Rápidas
Perguntas frequentes sobre este tema
Rasputin realmente controlava o governo russo?
Não diretamente. Ele não ocupava nenhum cargo e não assinava decretos. Sua influência passava pela imperatriz Alexandra, que confiava no julgamento dele sobre nomeações ministeriais e eclesiásticas e repassava suas opiniões a Nicolau II, especialmente depois de 1915, quando Nicolau assumiu o comando pessoal do exército e deixou a governança interna praticamente nas mãos dela.
Rasputin era realmente um monge?
Não. Ele nunca foi ordenado e não ocupava nenhum cargo formal na igreja. Era um camponês siberiano que adotou o comportamento de um starets errante, uma espécie de homem santo leigo na tradição ortodoxa russa, um status que a própria igreja via com desconfiança duradoura.
Rasputin realmente sobreviveu a veneno e tiros antes de se afogar?
Essa é a lenda construída a partir das próprias memórias posteriores de Félix Yusupov, e pode ter sido exagerada para efeito dramático. O laudo original da autópsia não sobreviveu intacto, e os historiadores modernos que analisaram as evidências remanescentes são céticos de que elas comprovem claramente que ele ainda estava vivo quando seu corpo foi jogado no rio.
O que aconteceu com os homens que o mataram?
Félix Yusupov e o grão-duque Dmitri Pavlovich não enfrentaram nenhum julgamento criminal. Nicolau II os exilou para suas propriedades, uma punição branda que refletia o quanto de simpatia o assassinato despertou até mesmo dentro da família imperial. A monarquia não foi salva por isso. Poucos meses depois, ela desmoronou.


