
Guia do Viajante do Tempo para Jerusalém, 33 d.C.
Visitando a semana mais significativa da história religiosa ocidental. Como se vestir, onde ficar, o que comer na Páscoa judaica e como não ser crucificado pelas patrulhas romanas.
Bem-vindo ao ano 33 d.C. Se você acabou de sair de sua cronosfera no Monte das Oliveiras, tire um momento antes de descer. Abaixo de você, do outro lado do vale do Cedrom, as brancas muralhas de calcário de Jerusalém captam o sol da manhã, e a fachada dourada do Templo de Herodes é tão brilhante ao meio-dia que os peregrinos a comparam a uma montanha de neve em chamas.
Você chegou no décimo nono ano do imperador Tibério. Pôncio Pilatos é o prefeito romano. Caifás é o sumo sacerdote. Herodes Antipas governa a tetrarquia na Galileia. E é a semana da Páscoa judaica, que é ao mesmo tempo o pior e o melhor momento para visitar. Segundo Josefa, a população aumenta de uma base de cerca de 30.000 para mais de 200.000 peregrinos em apenas uma semana. Cada telhado está ocupado. Cada coorte romana da província foi convocada caso a multidão resolva fazer algo interessante.
Veja como voltar para casa com todos os membros e a maior parte da sua dignidade.
Não Pareça um Romano
A maneira mais rápida de arruinar sua viagem é ser confundido com um oficial romano ou cobrador de impostos. Não use uma toga. Não use sandálias militares com pregos. Não use, em hipótese alguma, qualquer coisa com louros.
A Túnica: Uma túnica de linho ou lã até o joelho, sem tingimento ou em tons terrosos (creme, marrom, vermelho empoeirado). Prenda-a na cintura com um cinto simples de pano ou couro.
O Manto: Um manto retangular de lã (himation em grego, tallit em hebraico). As franjas (tzitzit) nos cantos são ordenadas em Números 15:38; um homem sem elas é lido como gentio ou alguém que esconde algo.
As Sandálias: Sandálias de couro lisas com correias simples. Não botas. Nada que pareça ter vindo de um legionário.
Barbas (homens): Obrigatórias. Apare-as, nunca as raspe por completo. Um judeu de rosto barbeado é lido como helenizado ao ponto da apostasia ou, pior, como ator.
Cabelo (mulheres): Cubra-o. Um véu de linho sobre a cabeça em público é inegociável para mulheres casadas.
Joias: Discretas. Sem anéis com retratos imperiais, sem bordas roxas em nada.
Sobrevivência Linguística
Jerusalém é trilíngue num bom dia, quadrilíngue num dia ruim.
O aramaico é o que você ouvirá nos mercados e na maioria das casas. Se você for aprender apenas um idioma para esta viagem, que seja o aramaico.
O hebraico é a língua das escrituras e da liturgia. Você o ouvirá no interior dos recintos do Templo e nas sinagogas, mas conversas comuns quase nunca acontecem nele.
O grego coinê é a língua franca do mundo romano oriental. Judeus cultos, comerciantes e a maioria dos auxiliares romanos vão entendê-lo. Recorra ao grego antes de tentar qualquer outra coisa.
O latim está confinado à fortaleza Antônia e ao staff do prefeito. Falar latim na rua o marca como oficial romano ou como alguém que finge ser um. Não faça isso.
Algumas frases úteis em aramaico:
- Shlama — paz, olá.
- Todah — obrigado.
- Aiyka — onde?
- Kammah — quanto custa?
- La — não. Ein — sim.
Onde Ficar
Não há Hilton no Monte das Oliveiras. Existem essencialmente três opções, e durante a Páscoa as três lotam rápido.
Casas de hóspedes para peregrinos perto do Portão de Damasco. Casas particulares cujos proprietários alugam aposentos superiores por alguns denários por semana. Os intermediários vão encontrá-lo no portão antes que você os encontre. Verifique o anfitrião.
Telhados. Durante a Páscoa, dormir no telhado plano de uma casa na cidade é normal, esperado e gratuito se você tiver um amigo na cidade. Traga seu manto. As noites de Jerusalém no início da primavera são mais frias do que os visitantes esperam.
Betânia. Uma aldeia a três quilômetros ao leste, no declive do Monte das Oliveiras. Mais tranquila, mais fresca, com olivais. Muitos peregrinos se hospedam aqui e caminham até a cidade todas as manhãs. A caminhada leva cerca de quarenta e cinco minutos e é genuinamente agradável.
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O Que Comer na Páscoa
O seder é a refeição do ano. Se você conseguir um convite, comerá bem e aprenderá mais sobre o judaísmo do primeiro século em três horas do que em três meses de leitura.
O Cordeiro: Um macho de um ano sem defeito, abatido no Templo na tarde do 14 de Nisan, depois assado inteiro num espeto de madeira de romãzeira. Um único cordeiro alimenta uma chavurah (grupo de refeição) de dez a vinte pessoas.
Matzá: Pão ázimo, sem fermento. Sem levedura na casa durante o festival. Se você for pego com pão fermentado (chametz), será multado e humilhado.
Ervas amargas (maror): Alface selvagem, endívia ou raízes semelhantes ao raiz-forte. Símbolo da amargura da escravidão no Egito.
Vinho: Quatro taças, misturadas com água, bebidas em uma ordem prescrita ao longo do seder. Local, frequentemente dos montes de Hebron, mais doce e com menos álcool do que o vinho de mesa moderno.
Comida de rua no restante da semana: Bancas de pão-e-peixe na Cidade Baixa fazem bom negócio. Peixe salgado da Galileia, pão ázimo, azeitonas, tâmaras, queijo mole, caldo de lentilhas. Evite carne de porco. Evite qualquer coisa que tenha ficado ao sol desde o sacrifício da manhã.
Navegando pela Cidade
A Cidade Alta (colina ocidental) é onde os ricos moram: a aristocracia sacerdotal, os saduceus, o antigo palácio de Herodes (agora residência de Pilatos). Ruas largas, grandes casas com mikvaot (banhos rituais) nos porões. A arqueóloga Jodi Magness documentou esses mikvaot em detalhe; estão por toda parte no bairro sacerdotal.
A Cidade Baixa (a Cidade de Davi) é onde os artesãos, pescadores e a maioria dos peregrinos realmente vivem e fazem compras. Ruas mais estreitas, mais movimentadas, mais interessantes se você quiser ver a vida ordinária.
O Monte do Templo domina tudo. A renovação de Herodes mais do que dobrou a plataforma original, e com 36 acres é um dos maiores recintos sagrados do mundo antigo.
A Piscina de Siloé, na extremidade sul da Cidade Baixa, é o banho ritual público principal. A maioria dos peregrinos passa por ela antes de subir ao Templo.
A fortaleza Antônia fica no canto noroeste do Monte do Templo, com vista para o Pátio dos Gentios. Cerca de 600 soldados auxiliares estão aquartelados lá durante os festivais. Parta do princípio de que estão observando. Estão.
Como Não Ser Crucificado
A crucificação é uma punição romana para escravos, rebeldes e desordeiros provinciais. Veja como ficar longe de uma cruz.
- Não afirme ser o Messias. A província teve vários pretensos messias nos últimos cinquenta anos, e a resposta padrão de Pilatos é crucificá-los, junto com seus seguidores, e qualquer um que esteja por perto.
- Não carregue armas perto do Templo. As tropas de Pilatos têm ordens permanentes de deter qualquer um com uma lâmina oculta nos recintos. Os Sicários (literalmente "homens das facas") deixaram o prefeito nervoso.
- Não discuta com centuriões. Se um mandar você carregar sua mochila por uma milha (legal, segundo a angaria romana), você carrega. Não negocie.
- Evite os círculos zelotes. Simpatizar com eles na taverna errada pode colocá-lo numa lista romana. A lista não tem final feliz.
- Pague o imposto do Templo na moeda certa. O meio-siclo deve ser pago em siclos de Tiro, não em denários romanos (que carregam a imagem do imperador e são considerados idólatras). As mesas dos cambistas no Pátio dos Gentios trocarão suas moedas por uma pequena comissão. Sim, são os mesmos cambistas de quem você já deve ter ouvido falar. Seja educado.
Imperdível: O Templo
Se você não fizer mais nada em 33 d.C., percorra o Monte do Templo. A renovação de Herodes, o Grande, iniciada por volta de 20 a.C. e ainda não concluída, é o projeto de construção mais ambicioso do Mediterrâneo oriental.
O Pátio dos Gentios é a vasta praça externa onde qualquer um pode caminhar. Vendedores vendem pombas e cordeiros para sacrifício. Os cambistas trabalham em mesas baixas. O barulho é extraordinário.
O Soreg é uma baixa barreira de pedra que separa o pátio externo dos pátios interiores. Inscrições bilíngues em grego e latim avisam os gentios em termos inequívocos: qualquer não-judeu que ultrapasse a barreira será responsável pela sua própria morte consequente. Dois exemplares sobreviveram até os dias modernos. Não os teste.
O Santo dos Santos, a câmara mais interior, está vazia. A Arca da Aliança desapareceu desde a destruição babilônica em 586 a.C. Apenas o sumo sacerdote entra nessa câmara, e apenas uma vez por ano, no Yom Kippur, com uma corda amarrada ao tornozelo para o caso de ele ser fulminado lá dentro.
Passeio de um Dia: Betânia ou o Monte das Oliveiras
Quando a cidade ficar grande demais (e vai ficar), caminhe para o leste. Suba o declive, passe pelos olivais, pela prensa em Getsêmani, sobre a crista até Betânia. É mais fresco lá. A brisa traz cheiro de flor de oliveira e fumaça de lenha em vez de multidões e incenso. Da borda ocidental do monte, você tem a mesma vista cartão-postal com que chegou, só que agora sabe o que há nela.
Muitos peregrinos que desistiram de encontrar uma cama acampam nessas encostas durante a Páscoa. Você não estará sozinho, mas estará em silêncio, e o silêncio é um luxo por si só esta semana.
Traga água. Traga seu manto. Traga a disposição de guardar para si suas opiniões modernas. O ano 33 d.C. é a semana mais documentada da história ocidental, e está acontecendo, agora mesmo, nas ruas abaixo de você. Observe. Escute. Cuidado com os centuriões.
E, seja o que for, não fique muito perto do homem no jumento quando ele descer pela estrada vindo de Betfagé. A coorte romana na Antônia já está tomando notas.
Respostas Rápidas
Perguntas frequentes sobre este tema
Como era Jerusalém em 33 d.C.?
Jerusalém em 33 d.C. era uma cidade-cliente romana fortificada com cerca de 30.000 habitantes permanentes, governada espiritualmente pelo sumo sacerdote Caifás e politicamente pelo prefeito Pôncio Pilatos. Durante a Páscoa judaica, a população aumentava para entre 150.000 e 250.000 peregrinos, segundo Josefa.
Que língua era falada em Jerusalém no primeiro século?
O aramaico era o idioma cotidiano das ruas da Judeia. O hebraico era reservado para a liturgia e as escrituras. O grego coinê servia como língua franca do comércio, enquanto o latim ficava restrito principalmente aos oficiais romanos dentro da fortaleza Antônia.
Quão segura era Jerusalém no primeiro século para viajantes?
Razoavelmente segura de dia, menos à noite e consideravelmente menos durante a Páscoa. As patrulhas romanas mantinham a ordem, mas usavam a força rapidamente, e a tensão política entre a autoridade romana, a aristocracia do Templo e as facções zelotes podia transformar um dia de mercado em violência sem aviso.
Onde se ficava durante a Páscoa em 33 d.C.?
A maioria dos peregrinos ficava em casas de hóspedes particulares dentro das muralhas da cidade, dormia nos telhados ou acampava em aldeias como Betânia, no Monte das Oliveiras. Não havia estalagens no sentido moderno; os moradores abriam seus aposentos superiores para parentes e estranhos em viagem.
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