
Guia do Viajante do Tempo para Bagdá Abássida, 800 d.C.
Sobreviva à Bagdá Abássida em 800 d.C. — a Cidade Redonda e maior metrópole da Terra durante a Era de Ouro do Islã sob o califa Harun al-Rashid.
Bem-vindo, viajante, ao centro do mundo conhecido. O ano é 800 d.C., e a Bagdá Abássida não é apenas uma cidade — ela é a cidade. Com uma população que ultrapassa um milhão de almas, ela eclipsa tudo o que existe na Europa. Londres não passa de uma aldeia lamacenta em comparação. Constantinopla é respeitável, mas Bagdá? Bagdá é onde o conhecimento, a riqueza e o poder convergem como em nenhum outro lugar do planeta.
O califa Harun al-Rashid senta no trono do Califado Abássida, governando um império que vai do Marrocos à Ásia Central. E você está prestes a passar pelos portões de sua capital. Aqui está tudo o que você precisa saber para sobreviver — e quem sabe até se divertir.
Orientando-se
Bagdá foi construída do zero em 762 d.C. pelo califa al-Mansur como um círculo perfeito — os moradores a chamam de "Cidade Redonda" ou Madinat al-Salam, a Cidade da Paz. As muralhas circulares originais abrigam o palácio califal e a Grande Mesquita no centro, mas em 800 d.C. a cidade já se expandiu muito além dessas muralhas dos dois lados do rio Tigre.
A margem leste (Rusafa) é o coração comercial. A margem oeste (Karkh) é onde os mercados transbordam com mercadorias de todos os cantos do mundo conhecido. Uma série de pontes flutuantes conecta as duas metades. Você as cruzará diariamente se quiser experimentar tudo.
Não se perca nas ruelas estreitas dos souks. Memorize a mesquita mais próxima — o chamado à oração cinco vezes ao dia é seu sistema de GPS gratuito.
O Que Vestir
Deixe as calças jeans em casa. Os homens devem usar uma túnica comprida chamada thawb ou qamis, de preferência em linho branco ou sem tingimento. Por cima, uma veste larga — a jubba. Um turbante não é estritamente obrigatório para não muçulmanos, mas usá-lo sinaliza respeitabilidade e impede o sol da Mesopotâmia de fritar seu cérebro. Algodão e linho são seus melhores amigos. A seda está disponível, mas é cara, e usá-la sendo homem levanta sobrancelhas entre os mais devotos.
As mulheres devem usar roupas largas e sobrepostas, além de uma cobertura para a cabeça. Um grande pano retangular (khimar) drapeado sobre a cabeça e os ombros é o padrão. As mulheres abastadas usam sedas e brocados coloridos por baixo.
Calçados: sandálias de couro ou botas macias. As ruas são uma mistura de terra batida, tijolos e, ocasionalmente, algo em que você preferiria não pisar.
Dica de ouro: mantenha suas roupas limpas. Os bagdalis levam a higiene pessoal muito a sério. Os banhos públicos (hammams) estão por toda parte e são magníficos. Use-os.
O Que Comer (e Beber)
Você está em para uma surpresa agradável. A Bagdá de 800 d.C. tem talvez a culinária mais sofisticada do mundo. Esqueça a papa sem graça da Europa medieval — esta é uma cultura gastronômica que escreve livros de receitas de verdade.
Pratos imperdíveis:
- Sikbaj — Um ensopado de carne agridoce com vinagre, mel e frutas secas. O prato favorito pessoal do califa.
- Tharid — Camadas de pão embebido em um rico caldo de carne. Simples, substancioso e amado por todos, de trabalhadores a estudiosos.
- Harisa — Trigo e carne cozidos lentamente e socados em uma pasta lisa e reconfortante. O café da manhã perfeito.
- Lauzinaj — Delicadas pastéis de amêndoa envoltos em massa fina, mergulhados em calda de água de rosas. A sobremesa dos campeões.
- Frutas frescas — Tâmaras, romãs, figos, damascos e melões são abundantes e espetaculares.
Os mercados vendem especiarias da Índia, açafrão da Pérsia e açúcar (ainda um luxo, mas disponível). Vendedores de comida de rua alinham as principais vias.
Bebidas: A água é retirada do Tigre e vendida por carregadores. Bebidas de frutas — especialmente de romã e tamarindo — são populares. Oficialmente, o álcool é proibido pela lei islâmica. Extraoficialmente... o vinho das comunidades cristãs e judaicas circula livremente, e até a corte do califa é conhecida por apreciar uma noite de poesia e vinho. Apenas seja discreto a respeito.
Costumes e Regras Sociais
A religião dita o ritmo do dia. O chamado à oração (adhan) soa cinco vezes por dia. Durante os horários de oração, a maioria das atividades para. Não-muçulmanos não são obrigados a rezar, mas evite comer, beber ou fazer barulho de forma conspícua nesses momentos.
Somente a mão direita. Coma com a mão direita. Ofereça coisas com a mão direita. A mão esquerda é considerada impura — usá-la em situações sociais é uma gafe grave.
A hospitalidade é sagrada. Se alguém o convidar para sua casa, aceite. Recusar é rude. Você receberá comida e bebida — coma, elogie o anfitrião e traga um pequeno presente se possível.
As saudações importam. "As-salamu alaykum" (a paz esteja convosco) é a saudação padrão. Até não-muçulmanos podem usá-la, e as pessoas apreciarão o esforço.
A diversidade religiosa é real. Bagdá abriga muçulmanos, cristãos (especialmente nestorianos), judeus, zoroastrianos e sabeus. Todos vivem e trabalham lado a lado, frequentemente nos mesmos bairros. O médico pessoal do califa provavelmente é cristão. A tolerância não é perfeita, mas é notavelmente ampla para qualquer padrão histórico.
A família Barmácida são os poderosos vizires do califa. Mencioná-los favoravelmente abre portas em qualquer lugar. Mas atenção — em poucos anos, Harun vai se voltar contra eles de forma espetacular. Não crie vínculos profundos demais.
Perigos e O Que Evitar
O Tigre enche. A primavera pode trazer enchentes devastadoras. Se os moradores começarem a parecer nervosos e a mover suas mercadorias para os andares superiores, siga o exemplo deles.
O crime existe nas ruas. Os souks podem ser perigosos após o escurecer. Batedores de carteira, vigaristas e ladrões armados ocasionais operam nas vielas. Viaje acompanhado à noite e guarde seu dinheiro em uma bolsa presa ao corpo, não em uma bolsa pendurada.
Intrigas políticas. A corte Abássida é uma teia de facções, espiões e lealdades cambiantes. Não discuta política com estranhos. Não expresse opiniões sobre o califa. Sorria, acene com a cabeça e mude de assunto.
Doenças. Este é o século IX — disenteria, malária (proveniente dos pântanos ao sul da cidade) e vários tipos de febre são ameaças reais. Beba líquidos fervidos sempre que possível. Os hammams são limpos, mas evite os que pareçam mal conservados.
Não insulte o Islã. Sério. A blasfêmia não é tratada como liberdade de expressão. Guarde as opiniões teológicas para si.
Atrações Imperdíveis
A Casa da Sabedoria (Bayt al-Hikma) — Esta é a razão pela qual os estudiosos se lembrarão de Bagdá por mil anos. Fundada pelos Abássidas, esta instituição está traduzindo textos gregos, persas, indianos e siríacos para o árabe em um ritmo impressionante. Matemática, astronomia, medicina, filosofia — tudo está acontecendo aqui. Se você conseguir entrar, poderá encontrar estudiosos que estão literalmente inventando a álgebra.
As muralhas da Cidade Redonda — Mesmo que a cidade tenha se expandido para além delas, as fortificações circulares originais são uma maravilha arquitetônica. Quatro portões (Kufa, Basra, Khorasan e Damasco) apontam para as direções-chave do império.
O palácio califal — Você não vai entrar sem um convite, mas o portão dourado e os jardins ao redor impressionam de fora. Nos dias de festa, procissões se derramam pelas ruas com músicos, soldados e elefantes.
Os souks de Karkh — Quilômetros de mercados cobertos vendendo de tudo: sedas chinesas, especiarias indianas, marfim africano, tapetes persas, vidros bizantinos e livros — tantos livros. Bagdá tem uma próspera indústria de papel (aprendida com prisioneiros de guerra chineses), e livreiros ocupam ruas inteiras.
A orla do Tigre — Alugue um pequeno barco e derive pelo rio ao pôr do sol. Ambas as margens são ladeadas de jardins, mansões e mesquitas. O poeta Abu Nuwas (que pode tentar lhe vender vinho e recitar versos escandalosos) frequenta as tabernas ao longo da margem leste.
As orações de sexta-feira na Grande Mesquita — Mesmo como observador, a escala pura da oração coletiva com milhares de fiéis é inesquecível.
Dicas Práticas de Sobrevivência
- Aprenda um pouco de árabe. O persa também é amplamente compreendido, mas o árabe é a língua do governo, da religião e da erudição.
- Carregue dinares e dirrãs. Dinares de ouro para grandes compras, dirrãs de prata para despesas diárias. A moeda Abássida é aceita da Espanha à Índia.
- Encontre um khan (caravanserai). São hotéis e armazéns combinados para viajantes. São básicos, mas seguros, e o estalajadeiro pode conectá-lo com guias locais.
- O papel é barato aqui. Bagdá fabrica papel em quantidade. Compre um pouco e mantenha um diário — você está vivendo em uma era de ouro que será lembrada para sempre.
- Visite um hospital. Bagdá tem hospitais (bimaristans) realmente funcionando, com alas separadas, farmácias e estudantes de medicina. Eles atendem pacientes gratuitamente, independentemente da religião. Isso está séculos à frente de qualquer coisa existente na Europa.
Seu Mantra de Sobrevivência em Uma Frase
Mantenha a mão direita pronta, as opiniões caladas e a curiosidade bem aberta — você está no centro intelectual do mundo, e isso não vai durar para sempre.
Os mongóis estão chegando em cerca de 450 anos — após o que o centro de gravidade do mundo islâmico se desloca para oeste, ao Cairo dos Mamelucos. Mas por ora, Bagdá brilha mais do que qualquer outra cidade na Terra. Aproveite cada momento.
Precisa de Conselhos de Quem Viveu Lá?
Obtenha relatos em primeira pessoa de quem realmente viveu esses momentos históricos.
Pergunte a ElesNão perca nenhum mistério
Receba novas investigações no seu e-mail
Análises semanais sobre casos não resolvidos, Hollywood vs. história e civilizações antigas. Sem spam. Cancele quando quiser.


