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Desclassificado: Os Pentagon Papers
4 de jul. de 2026Desclassificado7 min de leitura

Desclassificado: Os Pentagon Papers

Um histórico secreto do Pentágono provou que o governo havia mentido sobre o Vietnã por anos. Veja o que os arquivos desclassificados realmente documentam.

Em junho de 1967, o secretário de Defesa Robert McNamara ordenou discretamente um histórico interno completo de como os Estados Unidos haviam se envolvido no Vietnã. Ele não o encomendou para fazer alguém parecer bem. Segundo relatos posteriores de pessoas que trabalharam no estudo, ele o encomendou porque havia passado a duvidar da guerra que ele mesmo comandara por anos, e queria um registro antes que a verdade fosse enterrada junto com tudo o mais. Quatro anos depois, esse registro se tornou público de qualquer forma, não por escolha de McNamara, mas por um vazamento tão relevante que chegou à Suprema Corte em questão de semanas.

O Segredo

O estudo resultante, mais tarde conhecido pelo público simplesmente como Pentagon Papers, era um extenso histórico interno das decisões americanas sobre o Vietnã, do fim da Segunda Guerra Mundial até 1967. Somava cerca de 7 mil páginas em 47 volumes, e era classificado nos mais altos níveis justamente porque nunca deveria ser lido fora de um pequeno círculo de autoridades. Seu valor, e seu perigo, estavam em sua franqueza. Analistas escrevendo para um público interno, sem expectativa de escrutínio público, tinham pouco motivo para suavizar o que o registro mostrava: que, ao longo de vários governos, autoridades haviam escalado a guerra, expandido operações secretas e mantido campanhas de bombardeio enquanto, em particular, duvidavam, e às vezes simplesmente não acreditavam, que a guerra pudesse ser vencida.

Essa distância entre o discurso público a favor da guerra e a avaliação privada dela era o verdadeiro segredo. Não uma única operação secreta, mas um padrão, exposto nas próprias palavras do governo, de contar uma história ao público enquanto agia com base em outra.

Origens

Em meados dos anos 1960, McNamara havia se tornado discretamente cético em relação a uma guerra que ele mesmo ajudara a arquitetar. Segundo diversos relatos, ele encomendou o estudo sem informar plenamente o presidente Lyndon Johnson sobre seu alcance, e reuniu uma equipe de várias dezenas de analistas militares, historiadores e pesquisadores, alguns vindos do Pentágono e outros da RAND Corporation, um centro de estudos voltado para defesa que realizava extenso trabalho contratado para o Departamento de Defesa. A missão deles era reconstruir o processo de decisão interno dos governos Truman, Eisenhower, Kennedy e Johnson usando telegramas sigilosos, memorandos e documentos de planejamento, não relatos de imprensa ou declarações públicas.

A ironia, frequentemente apontada depois, é que o estudo só ficou pronto em 1969, quando o próprio McNamara já havia deixado o Pentágono. O homem que encomendara um acerto de contas honesto com a guerra nunca viu o produto final chegar à sua própria mesa. Ele chegou, em vez disso, ao seu sucessor, Clark Clifford, e depois simplesmente ficou guardado num cofre do Pentágono e num arquivo da RAND, arquivado em vez de utilizado, exatamente o destino que um histórico interno sem plano de publicação sempre estaria fadado a ter.

A Operação

O grupo de trabalho atuou majoritariamente isolado, recorrendo apenas a documentos governamentais internos e evitando, em grande parte, entrevistas externas, um método pensado para preservar o sigilo, mas que também deu ao estudo final uma qualidade documental incomum, sem filtros. Os volumes diplomáticos que cobriam negociações sensíveis foram, segundo relatos, mantidos separados a pedido do Departamento de Estado. Quando terminado, o estudo recebeu o carimbo Top Secret, Sensitive, e apenas um pequeno número de cópias completas chegou a ser produzido, distribuídas a um punhado de autoridades graduadas e arquivadas na RAND, onde vários dos analistas que ajudaram a escrevê-lo ainda trabalhavam.

Um deles era Daniel Ellsberg, ex-oficial dos fuzileiros navais com doutorado em economia, que havia trabalhado dentro do Pentágono sob McNamara e passado um tempo no Vietnã observando a guerra de perto. Ellsberg entrara no serviço público acreditando na necessidade da guerra. Quando o estudo chegou ao arquivo da RAND, ele já estava convencido de que a guerra era invencível e de que o público vinha sendo enganado sobre isso havia anos. O acesso aos volumes finalizados, segundo seus relatos posteriores, transformou essa convicção numa decisão de agir.

Trabalhando à noite com um colega da RAND, Anthony Russo, Ellsberg começou a fotocopiar o estudo página por página, volume por volume, uma empreitada que, segundo relatos, levou meses, dada a precariedade das copiadoras de escritório da época e o volume imenso do material. Ele primeiro procurou membros do Congresso, entre eles, segundo relatos, o senador William Fulbright, na esperança de que um senador em exercício pudesse ler os documentos em sessão pública, sob a proteção do privilégio parlamentar. Quando esse caminho não deu em nada, ele recorreu à imprensa, especificamente ao repórter do New York Times Neil Sheehan.

Exposição

O New York Times começou a publicar trechos do estudo em 13 de junho de 1971, sob uma manchete anunciando um histórico secreto do Pentágono que contradizia anos de declarações públicas sobre a guerra. O governo Nixon, que herdara a guerra em vez de tê-la iniciado, ainda assim reagiu com alarme, obtendo uma rara liminar de restrição prévia para interromper novas publicações, a primeira ordem desse tipo contra um grande jornal americano na história do país. Quando o Washington Post obteve sua própria cópia e continuou publicando, o governo tentou bloqueá-lo também, e a disputa chegou à Suprema Corte em aproximadamente duas semanas.

Enquanto o Times e o Post lutavam contra as liminares na justiça, cópias do estudo, segundo relatos, continuaram circulando. Ellsberg e seus contatos distribuíram trechos a pelo menos uma dúzia de outros jornais americanos, que passaram a publicar seus próprios excertos mesmo enquanto os dois maiores jornais do país estavam legalmente impedidos de fazê-lo, uma rede de distribuição improvisada que tornou qualquer liminar isolada quase inútil como forma de realmente conter o material.

Em 30 de junho de 1971, a Corte decidiu por 6 votos a 3, no caso New York Times Co. v. United States, que o governo não havia cumprido o pesado ônus necessário para justificar a restrição prévia à publicação, e os jornais continuaram imprimindo. Até hoje é uma das decisões mais marcantes da Primeira Emenda na história americana.

A batalha jurídica pela publicação era apenas metade da história. Ellsberg e Russo foram indiciados por acusações que incluíam conspiração, espionagem e furto de propriedade do governo, enfrentando uma pena combinada de bem mais de cem anos se condenados. Durante o processo, surgiram evidências de que uma unidade da Casa Branca conhecida informalmente como os Plumbers, formada em parte como resposta ao vazamento, havia invadido o consultório do psiquiatra de Ellsberg, o Dr. Lewis Fielding, em busca de material para desacreditá-lo, e que Ellsberg também havia sido alvo de escutas telefônicas irregulares. Em maio de 1973, o juiz William Matthew Byrne Jr. rejeitou todas as acusações, citando o que chamou de conduta imprópria do governo, que havia violado os direitos de Ellsberg de forma tão completa que um julgamento justo já não era mais possível.

O Que os Arquivos Dizem, e o Que Ainda É Sigiloso

O registro desclassificado sustenta uma conclusão clara: autoridades de diversos governos sabiam, em seus próprios documentos internos, que a justificativa pública da guerra não correspondia à avaliação privada dela. O estudo documentou operações secretas contra o Vietnã do Norte, a expansão dos bombardeios no Laos, e premissas de planejamento que tratavam o provável fracasso da guerra como hipótese interna de trabalho, mesmo enquanto declarações públicas prometiam progresso constante. Essa é a conclusão documentada, não uma teoria da conspiração sobreposta a ela.

O que os arquivos não mostram é qualquer irregularidade do governo Nixon no próprio Vietnã, já que a cobertura do estudo terminava em 1967, antes de Nixon assumir o cargo. A reação furiosa de Nixon, e as contramedidas ilegais que ela desencadeou, são melhor interpretadas como as de um presidente protegendo o precedente do sigilo do Executivo do que como uma tentativa de esconder sua própria condução da guerra, embora a invasão e as escutas usadas contra Ellsberg tenham se tornado, por si mesmas, parte do padrão mais amplo de abusos que veio à tona durante a era Watergate.

Grande parte do próprio estudo já não é mais secreta. Extensas seções foram desclassificadas durante e depois do litígio de 1971, e em 2011, no quadragésimo aniversário da publicação, os Arquivos Nacionais divulgaram o texto completo, com apenas um pequeno número de páginas ainda retidas. O que continua genuinamente incerto é mais restrito: os detalhes precisos de o quanto as atividades mais amplas da unidade dos Plumbers foram de fato totalmente esclarecidas, e quantas das conversas privadas de Ellsberg com fontes e colegas foram monitoradas além do que já foi documentado. A história central, porém, aquela que os arquivos foram construídos para esconder, não está mais em disputa. O governo passara anos dizendo uma coisa ao público sobre o Vietnã enquanto seus próprios registros diziam outra, e o estudo escrito para preservar um relato honesto dessa distância acabou, contra a intenção de seus autores, entregando-o diretamente ao público que deveria manter no escuro.

Respostas Rápidas

Perguntas frequentes sobre este tema

O vazamento dos Pentagon Papers foi real?

Sim. Em 1971, o analista militar Daniel Ellsberg fotocopiou um estudo sigiloso do Pentágono sobre a Guerra do Vietnã e o entregou ao New York Times e a outros jornais, desencadeando um caso na Suprema Corte, uma acusação de espionagem que fracassou e um escândalo que chegou até a Casa Branca de Nixon.

Quem vazou os Pentagon Papers?

Daniel Ellsberg, ex-analista do Pentágono e da RAND Corporation que havia ajudado a compilar o estudo, o copiou com a ajuda de um colega, Anthony Russo, depois de concluir que a guerra não podia ser vencida e que o público merecia saber disso.

O que os Pentagon Papers revelaram?

O registro desclassificado mostra que diversos governos duvidavam, em documentos internos, que a guerra fosse vencível, ao mesmo tempo em que afirmavam publicamente haver progresso, e que operações secretas e a expansão dos bombardeios foram escondidas do Congresso e do público. A cobertura do estudo terminava em 1967, então ele não documentava a própria condução da guerra pelo governo Nixon.

Os Pentagon Papers ainda são sigilosos?

Em sua maior parte, não. O governo desclassificou grandes trechos durante o litígio de 1971 e em divulgações posteriores, e em 2011, no quadragésimo aniversário da publicação, os Arquivos Nacionais divulgaram o texto completo, com apenas um pequeno número de páginas ainda retidas.

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