
Desclassificado: O Arquivo da Força Aérea Por Trás do Incidente de Roswell
O relatório de 1994 da Força Aérea sobre o Projeto Mogul é a resposta oficial do governo para a mais famosa história de OVNI dos Estados Unidos. Veja o que o arquivo diz.
Em julho de 1947, um fazendeiro chamado W.W. "Mac" Brazel encontrou num campo do rancho Foster, que ele administrava, destroços espalhados que descreveu como gravetos, papel-alumínio, tiras de borracha e papel resistente, parte deles marcados com uma fita estranha estampada com símbolos florais. Ele levou parte do material até Roswell, no Novo México, e mencionou o achado ao xerife local. Em poucos dias, a história havia deixado de ser uma curiosidade rural e virado uma manchete que o mundo nunca deixou totalmente de lado: "RAAF Captura Disco Voador em Rancho na Região de Roswell".
Quase meio século depois, a Força Aérea dos Estados Unidos abriu um dossiê sobre sua própria história e divulgou um tipo de história bem diferente. Não um disco. Não um alienígena. Um trem de balões, várias centenas de metros deles amarrados uns aos outros, flutuando silenciosamente sobre o Novo México como parte de um programa de espionagem nuclear tão sigiloso que até seu próprio nome era escondido da maioria das pessoas que o colocavam no ar.
O Segredo
O programa se chamava Projeto Mogul, e seu propósito não tinha nada a ver com previsão do tempo, apesar da fachada atribuída a ele na época. Segundo o relato desclassificado da Força Aérea, o Mogul foi criado para detectar a assinatura acústica de testes de bombas atômicas soviéticas a grandes distâncias, usando cordas de balões carregando microfones sensíveis de baixa frequência para o alto da estratosfera, onde canais sonoros poderiam, em teoria, transportar o sinal de uma detonação por milhares de quilômetros.
Isso era 1947. A União Soviética ainda levaria mais dois anos para testar seu primeiro dispositivo atômico. Cientistas e planejadores militares americanos corriam para construir qualquer capacidade de alerta antecipado que conseguissem, e a detecção acústica por sensores presos a balões era uma das várias abordagens em estudo. Como o programa envolvia tanto inteligência nuclear quanto tecnologia de reconhecimento por balão, ambas áreas que os militares queriam manter bem longe da atenção pública ou soviética, o próprio Mogul era classificado. O pessoal que trabalhava nos lançamentos no Novo México, segundo relatos, não sabia o que estava de fato escutando.
Origens
Os trens de balões eram lançados do Campo Aéreo do Exército de Alamogordo, não muito longe do Campo Aéreo do Exército de Roswell, onde os famosos destroços acabaram caindo. Cada trem podia se estender por centenas de metros e combinava dezenas de balões de neoprene ou polietileno com refletores de radar, pacotes de equipamentos sensíveis e instrumentação projetada para ser rastreada do solo.
Os alvos de radar são um dos detalhes mais relevantes do arquivo desclassificado. Construídos com hastes de madeira balsa, reforçados com fita e revestidos de papel-alumínio metálico para ficarem visíveis no radar, eram frágeis, descartáveis e, crucialmente, desconhecidos para quase qualquer pessoa que pudesse se deparar com seus destroços. Segundo o relatório da Força Aérea, isso corresponde fortemente à descrição de Brazel: papel-alumínio, gravetos, borracha e fita estampada com símbolos, que investigadores mais tarde relacionaram a uma fita de produção comercial com um padrão floral semelhante, usada para reforçar costuras em alguns dos alvos, e não a nenhum material exótico ou de origem não terrestre.
A Operação
Os registros de voo do Projeto Mogul de meados de 1947 estão incompletos, e a investigação de 1994 da Força Aérea reconhece abertamente essa lacuna. Em vez de um único registro sobrevivente ligando diretamente um voo específico ao campo de Brazel, investigadores reconstruíram a sequência provável a partir de dados meteorológicos sobreviventes, entrevistas com ex-integrantes do Mogul, incluindo o cientista do projeto Charles B. Moore, e registros de lançamentos próximos, concluindo que um lançamento designado na taquigrafia do projeto (comumente citado como Voo 4) era a fonte mais provável, tendo sumido do rastreamento não muito longe do local dos destroços, por volta das datas relevantes.
O que aconteceu em seguida, segundo o registro divulgado, seguiu uma burocracia militar previsível e nada notável. Brazel relatou os destroços ao xerife George Wilcox, que alertou o Campo Aéreo do Exército de Roswell. O major Jesse Marcel, oficial de inteligência da base, foi enviado para recolher o material. Um oficial de relações públicas, segundo relatos agindo sem autorização superior, divulgou um comunicado à imprensa descrevendo a recuperação de um "disco voador", uma expressão quase certamente usada de forma informal, ecoando a gíria da época para destroços aéreos não identificados, e não como uma alegação de origem extraterrestre.
A história explodiu. Em cerca de um dia, o comando do Exército em Fort Worth agiu para contê-la, realizando uma coletiva de imprensa na qual os destroços, ou destroços apresentados como sendo o mesmo material, foram exibidos e identificados como um balão meteorológico e seu alvo de radar. Repórteres fotografaram Marcel posando com o material. A história saiu das manchetes em cerca de uma semana, e Roswell voltou a ser uma cidade obscura do Novo México pelas três décadas seguintes.
Exposição
Durante a maior parte do período pós-guerra, "o balão meteorológico de Roswell" não era controverso. Era a explicação aceita e sem graça, e poucas pessoas a questionavam. Isso mudou no fim dos anos 1970 e nos anos 1980, quando pesquisadores, vários deles recorrendo a novas entrevistas com testemunhas já idosas, incluindo o próprio Jesse Marcel, argumentaram que a história de fachada original do balão meteorológico não conseguia explicar o volume e o caráter incomum dos destroços que algumas testemunhas recordavam, e levantaram a possibilidade de que o acidente envolvesse algo extraordinário que os militares haviam deliberadamente ocultado.
A literatura sobre OVNIs resultante cresceu até se tornar um dos subgêneros mais duradouros da cultura pop americana, incorporando supostas recuperações de destroços, autópsias e alegações de longa data sobre corpos recuperados no local. A pressão do Congresso, impulsionada substancialmente por uma linha persistente de investigação da delegação do Novo México no Congresso em nome de eleitores em busca de respostas, acabou levando o Escritório Geral de Contabilidade a solicitar formalmente registros do Pentágono relacionados a Roswell no início dos anos 1990.
Foi essa solicitação que produziu a nova investigação da própria Força Aérea. Incapazes de localizar os registros originais do Campo Aéreo do Exército de Roswell, que, segundo relatos, haviam sido destruídos décadas antes sob cronogramas rotineiros de retenção de registros sem relação com qualquer encobrimento, os investigadores montaram a explicação a partir dos próprios arquivos sobreviventes do Projeto Mogul, já que o Mogul havia sido desclassificado separadamente anos antes, à medida que sua sensibilidade da Guerra Fria diminuía.
O Que os Arquivos Dizem
A Força Aérea divulgou suas conclusões em dois relatórios. O relatório de 1994, "The Roswell Report: Fact versus Fiction in the New Mexico Desert" ("O Relatório Roswell: Fato versus Ficção no Deserto do Novo México"), concluiu que os destroços recuperados por Brazel eram compatíveis com um trem de balões do Projeto Mogul, mais provavelmente o lançamento desaparecido do Voo 4, e que a expressão original "disco voador" havia sido uma frase infeliz e informal que ganhou vida própria, provavelmente muito além do que seu autor pretendia.
Um segundo relatório, divulgado em 1997 e intitulado "The Roswell Report: Case Closed" ("O Relatório Roswell: Caso Encerrado"), tratou de uma vertente separada da lenda que havia crescido junto com a história dos destroços: alegações de testemunhas sobre pequenos corpos humanoides recuperados perto do acidente. Esse relatório concluiu que esses relatos provavelmente vinham de uma fusão de memórias ao longo de décadas, apontando para um programa posterior e não relacionado da Força Aérea nos anos 1950, que usava bonecos de teste antropomórficos lançados de grande altitude durante pesquisas de paraquedas e assentos ejetores na mesma região geral do Novo México. Segundo o relatório, testemunhas já idosas, lembrando eventos separados por anos, podem ter fundido as recuperações dos bonecos e a história dos destroços de 1947 numa única lembrança ao longo do tempo, um padrão bem documentado na memória de longo prazo de eventos de grande estresse ou grande repercussão pública.
O que continua genuinamente em aberto é mais restrito do que sugere a lenda popular. A trilha documental voo a voo do lançamento exato do Mogul está incompleta, reconstruída em vez de encontrada intacta, e alguns depoimentos de testemunhas descrevendo o volume dos destroços e sua distribuição pelo campo não correspondem perfeitamente ao tamanho de um único trem de balões, uma discrepância que a Força Aérea atribui à falibilidade de memórias de décadas atrás, e não a qualquer evidência retida. Nenhum documento oficial, desclassificado ou não, descreve a recuperação de tecnologia alienígena ou de restos extraterrestres em Roswell. As partes ocultadas que existem em arquivos da era da Guerra Fria desse período dizem respeito, de forma esmagadora, a métodos de detecção nuclear, telemetria de balões e outros programas de inteligência sem relação, ainda sensíveis por motivos que nada têm a ver com OVNIs.
Roswell perdura menos porque o arquivo é fraco e mais porque a própria frase inicial do Exército, "disco voador", era boa demais como manchete para ser totalmente recolhida depois. O registro desclassificado não descreve um encobrimento de contato alienígena. Ele descreve o encobrimento de um balão, a serviço de um programa de escuta voltado diretamente para Moscou, e uma burocracia que atrapalhou feio sua própria comunicação num dia de poucas notícias em julho.
Respostas Rápidas
Perguntas frequentes sobre este tema
O que foi o Projeto Mogul?
O Projeto Mogul foi um programa sigiloso das Forças Aéreas do Exército dos Estados Unidos que lançava longos trens de balões de alta altitude carregando microfones e refletores de radar, criados para detectar ondas sonoras de testes nucleares soviéticos antes mesmo de a União Soviética ter testado uma bomba. Segundo o relatório desclassificado de 1994 da Força Aérea, os destroços de um desses trens de balões, lançado de Alamogordo, no Novo México, foram o que caiu no rancho Foster perto de Roswell em julho de 1947.
A Força Aérea realmente encobriu um OVNI em Roswell?
O registro desclassificado mostra que a história de fachada original, de que os destroços eram de um balão meteorológico, era ela mesma um engano deliberado, mas o segredo que estava sendo protegido era o trabalho de detecção nuclear do Projeto Mogul, não uma nave alienígena. Os relatórios da Força Aérea de 1994 e 1997 concluem que foi o sigilo comum de classificação, não evidência extraterrestre, que motivou décadas de evasivas oficiais.
Por que as testemunhas descreveram material estranho e corpos?
O relatório atribui o papel-alumínio incomum, o papel emborrachado e os destroços de madeira balsa à construção especializada dos trens de balões e alvos de radar do Mogul. Ele atribui os relatos de pequenos corpos a um período posterior e não relacionado, nos anos 1950, quando bonecos de teste de colisão foram lançados na mesma região durante pesquisas de paraquedas em alta altitude, memórias que, segundo a Força Aérea, provavelmente se fundiram ao longo de décadas de repetição da história.
Ainda há algo sigiloso sobre Roswell?
A explicação física central não é sigilosa: os registros de voo, os diagramas dos trens de balões e as entrevistas com o pessoal envolvido por trás da explicação do Mogul foram divulgados e são públicos. O que continua genuinamente em aberto não é um documento oculto, mas uma lacuna na trilha documental, já que o voo específico do Mogul ligado ao campo de destroços foi reconstruído a partir de fragmentos de registros sobreviventes e da memória de cientistas do projeto ainda vivos, em vez de um único registro de voo completo e ininterrupto.
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