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Os Assassinatos da Família Setagaya: O Crime Não Resolvido Mais Desconcertante do Japão
5 de mar. de 2026Casos Frios5 min de leitura

Os Assassinatos da Família Setagaya: O Crime Não Resolvido Mais Desconcertante do Japão

Na última noite de 2000, um assassino massacrou uma família inteira em Tóquio, permaneceu por horas comendo a comida deles e usando o computador — e depois desapareceu sem deixar rastro. Vinte e cinco anos depois, apesar de uma montanha de evidências de DNA, o caso continua sem solução.

Nas últimas horas antes do alvorecer do novo milênio, enquanto Tóquio se preparava para celebrar o ano de 2001, um assassino entrou pela janela do banheiro de uma casa tranquila no bairro de Setagaya. O que se seguiu tornar-se-ia o assassinato não resolvido mais infame do Japão — um crime tão audacioso, tão metódico e tão rico em evidências forenses que os investigadores ainda lutam para entender como o perpetrador escapou durante mais de duas décadas.

A Última Noite

A família Miyazawa levava uma vida comum em sua casa de três andares às margens do Parque Soshigaya. Mikio, 44 anos, era engenheiro de sistemas. Sua esposa Yasuko, 41, cuidava dos dois filhos do casal — Niina, de 8 anos, e Rei, de 6. A mãe de Yasuko morava na casa ao lado.

Na noite de 30 de dezembro de 2000, Niina visitou a avó para assistir televisão. Foi a última vez que alguém de fora da família viu qualquer um deles com vida. Às 22h38, Mikio entrou em seu e-mail protegido por senha — sua última atividade registrada.

Logo após a meia-noite, o assassino agiu.

Um Crime que Desafia a Lógica

O assassino entrou por uma janela do banheiro do segundo andar que estava destrancada, removendo a tela contra insetos e escalando pela unidade de ar-condicionado. Encontrou Rei, de 6 anos, dormindo em seu quarto e o estrangulou com as próprias mãos.

Mikio ouviu a perturbação e subiu correndo para enfrentar o invasor. Ocorreu uma luta violenta. O assassino esfaqueou Mikio repetidamente na cabeça com uma faca de sashimi que havia trazido consigo. A lâmina se partiu dentro do crânio de Mikio.

Sem se abalar, o assassino foi buscar uma faca santoku na cozinha dos Miyazawa e a usou para matar Yasuko e Niina. Em minutos, uma família inteira estava morta.

Mas o que aconteceu a seguir é o que transforma essa tragédia em um mistério duradouro.

O Assassino Que Não Queria Ir Embora

A maioria dos assassinos foge imediatamente. Esse ficou.

Por entre duas e dez horas, o assassino permaneceu na casa com os corpos de suas vítimas. Serviu-se de quatro garrafas de chá de cevada da geladeira. Comeu melão. Consumiu quatro copinhos individuais de sorvete. Usou o computador da família, conectando-se à internet entre 1h18 e 1h23.

Usou o banheiro e não deu descarga.

Tratou seus ferimentos do confronto com Mikio usando o estojo de primeiros socorros da família. Pode ter cochilado no sofá do segundo andar, embora os investigadores não consigam confirmar isso.

Quando finalmente foi embora, saiu da cena de crime mais rica em evidências da história japonesa — e jamais foi visto novamente.

Montanhas de Evidências, Zero Suspeitos

O assassino deixou para trás seu DNA, impressões digitais, marcas de sapato, fezes, sangue, roupas, uma bolsa de cintura, luvas, um gorro, um cachecol, dois lenços e a arma do crime partida. Os investigadores conseguiram reconstituir quase tudo sobre ele, exceto sua identidade.

Analisando suas fezes, a polícia determinou que ele havia comido vagem e gergelim no dia anterior. As roupas e a faca de sashimi foram rastreadas até lojas na Prefeitura de Kanagawa. Seus sapatos eram tênis Slazenger fabricados na Coreia do Sul — apenas cerca de 130 pares de sua camiseta específica foram produzidos, e os investigadores localizaram apenas doze compradores.

Talvez o mais perturbador: traços de areia encontrados na bolsa de cintura eram provenientes da Base Aérea Edwards, no deserto da Califórnia, assim como de uma pista de skate japonesa.

A análise de DNA revelou que o assassino é do sexo masculino, com sangue tipo A. Seu perfil genético sugere ancestralidade mista — o DNA materno indica possível ascendência do sul da Europa ou do Mediterrâneo; o DNA paterno aponta descendência do leste asiático, compatível com origens coreanas, chinesas ou japonesas. O haplogrupo do cromossomo Y aparece em um a cada quatro ou cinco coreanos, em um a cada dez chineses e em um a cada treze japoneses do sexo masculino.

Ele era jovem — a polícia acredita hoje que tinha entre 15 e 22 anos na época dos assassinatos. Media cerca de 1,70 m, era magro e destro.

E ainda assim, apesar da maior investigação da história japonesa — envolvendo mais de 246 mil ações investigativas —, nenhuma correspondência foi jamais encontrada.

A Casa Que Ainda Existe

Numa decisão incomum, as autoridades japonesas preservaram a casa dos Miyazawa exatamente como estava naquela noite terrível. A casa ainda fica ao lado do Parque Soshigaya, mantida pelo Departamento de Polícia Metropolitana de Tóquio como um monumento ao caso — e um lembrete de seu fracasso em resolvê-lo.

Todo ano, em 30 de dezembro, a polícia instala um posto de comando perto do local, distribuindo panfletos e pedindo informações. Todo ano, saem de mãos vazias.

O caso tornou-se catalisador de uma reforma legal. Em 2010, o Japão aboliu o prazo de prescrição para crimes puníveis com a pena de morte — uma mudança impulsionada em parte pela indignação pública de que o assassino de Setagaya pudesse escapar à justiça simplesmente deixando o relógio correr.

Teorias e Perguntas

Por que o assassino ficou tanto tempo? Estava esperando por algo? Procurando alguma coisa? Ou era simplesmente indiferente a ser capturado?

Por que trouxe sua própria faca, mas deixou para trás tantos objetos pessoais? A bolsa de cintura continha areia de dois continentes. Quem era essa pessoa que, aparentemente, tinha ligações tanto com uma instalação militar americana quanto com a cultura skatista japonesa?

Alguns investigadores acreditam que o assassino era um jovem estudante estrangeiro, possivelmente de ancestralidade asiática e europeia, que fugiu do Japão após os assassinatos. Outros sugerem que ele pode ter sido um imigrante ilegal que temia que a família o denunciasse. Alguns teorizam que ele conhecia os Miyazawa pessoalmente.

Em dezembro de 2021, a polícia anunciou que havia usado novas tecnologias para identificar uma pessoa que comprara o mesmo tipo de faca usado nos assassinatos. Por um momento, a esperança se acendeu. Mas o teste de DNA a descartou.

A Espera Sem Fim

O caso Miyazawa assombra o Japão precisamente porque deveria ter sido solucionado. O assassino deixou para trás tudo o que os investigadores poderiam precisar — tudo, exceto um nome. Comeu a comida deles, usou o banheiro, navegou na internet e saiu caminhando pela noite de Tóquio carregando segredos que 25 anos de investigação não conseguiram desvendar.

Em algum lugar do mundo, um homem nos seus quarenta e poucos anos carrega as memórias daquela noite. Talvez viva no Japão. Talvez na Coreia. Talvez em algum canto da Europa onde seus ancestrais maternos viveram. Talvez perto da Base Aérea Edwards, por onde a areia de sua bolsa um dia soprou pelo deserto.

A casa dos Miyazawa ainda existe. A polícia ainda espera. E o primeiro mistério do novo milênio permanece sem solução.

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