
Guia do Viajante do Tempo para a Londres dos Anos 60, 1967
Seu guia de sobrevivência para o Verão do Amor na cidade mais descolada do mundo — onde encontrar os Beatles, o que vestir na Carnaby Street e como se misturar com a turma bonita.
Londres em 1967 é o centro do universo conhecido. Os Beatles acabaram de lançar Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band. Mick Jagger está sendo preso por drogas enquanto se veste melhor do que a maioria dos aristocratas. Twiggy aparece em todas as capas de revistas. A minissaia conquistou o mundo. E todo mundo — absolutamente todo mundo — quer estar aqui.
Coloque as calças boca-de-sino e deixe as inibições para trás. Você está prestes a visitar a cidade mais emocionante do planeta durante seu ano mais emocionante.
Se Orientando
Londres ainda está se reconstruindo da guerra. Terrenos bombardeados pontilham a cidade, alguns convertidos em estacionamentos, outros abrigando flores silvestres. O horizonte é baixo — nada mais alto que a Catedral de São Paulo — mas a energia é estratosférica.
A cidade funciona com um sistema monetário pré-decimal que vai te confundir. São 12 pence por xelim e 20 xelins por libra. Ou seja, 240 pence por libra. Você também vai encontrar meias-coroas (dois xelins e seis pence), florins (dois xelins) e fartings se tiver azar. Apenas acene com confiança e entregue notas sempre que possível.
O metrô é seu amigo, custando seis pence na maioria das viagens pelo centro. Os icônicos ônibus de dois andares vermelhos são mais lentos. Os black cabs são caros, mas os motoristas conhecem cada beco de Londres — todos passaram pelo "The Knowledge", um teste rigoroso que exige a memorização de 25 mil ruas.
Onde Ir
Carnaby Street é o epicentro. Essa rua de pedestres em Soho se transformou de um canto tranquilo numa fenômeno de moda global. Butiques com nomes como Lord John, Irvine Sellars e Gear competem pela sua atenção com vitrines extravagantes. As roupas são loucas — ternos de veludo amassado, camisas com babados, estampas florais que fariam sua avó desmaiar. A moda masculina aqui é mais ousada do que a moda feminina em qualquer outro lugar.
King's Road, no Chelsea, atende a um público um pouco mais velho e um pouco mais rico. É aqui que você vai encontrar estrelas do rock de verdade. A Bazaar de Mary Quant iniciou a revolução da minissaia aqui. A Granny Takes a Trip vende jaquetas militares antigas e curiosidades vitorianas reinventadas para o dândi moderno. A Chelsea Drugstore (não, não é esse tipo de farmácia — é um moderno magazine) fica aberta até meia-noite.
Abbey Road, em St. John's Wood, parece uma rua comum, e é — exceto pelo estúdio da EMI no número 3. Os Beatles praticamente moram lá este ano. Você não vai entrar — a segurança é rigorosa — mas talvez aviste um Beatle chegando num Rolls-Royce pintado de psicodélico.
O Mercado de Portobello Road funciona aos sábados, vendendo de móveis vitorianos a máscaras africanas e excedentes militares. Os antiquários já perceberam que as estrelas do rock estão comprando, então os preços estão subindo. Chegue cedo.
O Que Vestir
Para mulheres, a minissaia é obrigatória. Falamos de meia coxa no mínimo. Combine com botas brancas estilo go-go, meia-calça estampada e um suéter justinho. O cabelo deve ser ou dramaticamente curto (o visual Twiggy) ou dramaticamente comprido (o visual hippie). Cílios postiços são enormes — pense em Dusty Springfield. A maquiagem é base clara, sombra branca e praticamente nenhuma cor nos lábios.
Para homens, jogue fora tudo que seu pai te ensinou. As camisas são rendadas, de gola alta e em cores como rosa e lilás. As calças são justas e ficando ainda mais justas. Boca-de-sino na barra, coladas na coxa. Jaquetas são de veludo ou veludo cotelê, muitas vezes com galões militares. O cabelo passa das orelhas, no mínimo. Bigodes estão voltando à moda. Barbas são coisa de quadrado.
A moda unissex está surgindo. A mesma butique pode vender o mesmo lenço de seda para um homem e para uma mulher. O mesmo estampado floral aparece nos dois sexos. Isso escandaliza os londrinos mais velhos, que é exatamente o objetivo.
O Que Comer
A reputação da comida londrina é péssima, e honestamente, não é sem razão. Mas dá para comer bem se você souber onde procurar.
O café da manhã inglês continua glorioso — ovos, bacon, salsichas, tomates grelhados, feijão assado, torrada e chá forte. Procure um "caff" (café, pronunciado com a vogal aberta) de verdade para a experiência autêntica. Os preços vão de um a dois xelins.
Os Wimpy Bars estão em todo lugar, servindo a versão britânica do hambúrguer americano. São servidos em pratos com talher, o que derrota o propósito, mas os adolescentes adoram.
Os restaurantes indianos estão revolucionando a gastronomia britânica. O boom dos restaurantes de curry está em pleno andamento, concentrado na Brick Lane no East End. É sua melhor opção para encontrar sabor. O frango tikka masala pode ter sido inventado agora — os historiadores debatem isso — mas seja lá o que estiverem servindo, é magnífico.
As trattorias (restaurantes italianos) ficaram da moda após uma década de férias britânicas no Mediterrâneo. Você vai encontrá-las em Soho, servindo espaguete à bolonhesa e chianti em garrafas envoltas em palha. A comida é simples, mas a atmosfera é romântica.
Evite: restaurantes de hotel, a "comida chinesa" britânica (inventada principalmente para o gosto local) e qualquer coisa servida numa estação de trem.
Entretenimento
O UFO Club no número 31 da Tottenham Court Road é onde as coisas acontecem. O Pink Floyd toca aqui regularmente, fazendo seus shows de luz num antigo salão de dança irlandês. Abre às 22h nas noites de sexta e continua até o amanhecer. A entrada custa dez xelins. Espere filmes de vanguarda projetados nas paredes, leituras de poesia entre as apresentações e um distinto aroma herbáceo.
O Marquee Club na Wardour Street recebe quem está prestes a estourar. The Who, David Bowie, Led Zeppelin — todos passam por aqui. É apertado, suado e lendário. O ingresso geralmente custa de cinco a sete xelins.
O Royal Albert Hall e o Royal Festival Hall recebem de shows clássicos a espetáculos pop. Os Beatles tocaram no Albert Hall, embora já tenham desistido das turnês.
O West End teatral está em plena efervescência. Um Violinista no Telhado está lotando as casas. A última peça de Harold Pinter está confundindo todo mundo. Para algo completamente diferente, experimente a cena dos "happenings" — eventos de arte performática onde qualquer coisa pode acontecer. São anunciados boca a boca e por panfletos colados nos postes da Carnaby Street.
Navegando a Sociedade
O sistema de classes está rachalando, mas não quebrado. A novidade de 1967 é que garotos da classe trabalhadora de Liverpool e do East End agora estão ditando as tendências culturais. Isso nunca aconteceu antes na história britânica, e as classes altas estão fascinadas e horrorizadas em igual medida.
Dito isso, o sotaque ainda importa. Um sotaque posh abre portas; um sotaque regional te marca como autêntico (legal) ou comum (não tão legal). Como viajante do tempo, cultive um sotaque meio americano se possível — americanos são exóticos e, portanto, sem classe social definida.
A homossexualidade foi parcialmente descriminalizada em julho de 1967, mas apenas para homens acima de 21 anos em caráter privado. A cena gay existe, mas permanece clandestina. Homens que querem encontrar homens devem procurar certos pubs — The Coleherne em Earl's Court, The Salisbury perto de Leicester Square — mas com discrição.
O uso de drogas é tecnicamente ilegal, mas a fiscalização é seletiva. A maconha está em todo lugar. O LSD é tecnicamente legal até outubro (uma brecha que logo será fechada). A polícia faz batidas ocasionais em clubes, principalmente para publicidade. Estrelas do rock são presas; pessoas comuns recebem advertências. Comprimidos chamados "corações roxos" e "bombas pretas" (anfetaminas) alimentam as noitadas de dança.
Perigos e Inconvenientes
O tempo é horrível. Isso é Londres. Carregue um guarda-chuva compacto e vista-se em camadas. A Swinging London balança na garoa tanto quanto no sol.
A fumaça melhorou desde a Lei do Ar Limpo de 1956, mas as lareiras a carvão ainda queimam. Nos dias especialmente frios, produz-se uma névoa amarelada com gosto de enxofre.
O metrô fecha à meia-noite. Planeje-se. Ônibus noturnos existem, mas são pouco confiáveis. Os minicabs (táxis sem licença) são duvidosos. Sua melhor opção é dançar até o amanhecer ou encontrar alguém com espaço no chão.
O racismo é real e feio. Anúncios de aluguel com "Não aceitamos negros, não aceitamos irlandeses" aparecem com regularidade. Enoch Powell ainda não fez seu infame discurso (isso é 1968), mas o sentimento existe. Visitantes não brancos devem ficar no centro cosmopolita de Londres.
O machismo é casual e constante. Mulheres não podem obter uma hipoteca sem um avalista masculino. Quer tomar uma dose num pub? Alguns não servem mulheres desacompanhadas. A revolução é real, mas incompleta.
Coisas Para Ver Antes que Desapareçam
O Kensington Market original está apenas começando num antigo armazém. É um labirinto de bancas vendendo roupas antigas, joias artesanais e incenso importado. Nos anos 1990 será uma casca comercial, mas agora é mágico.
Joe Orton está vivo e escrevendo peças. Ele será assassinado pelo amante em agosto. Veja Loot enquanto pode.
O antigo mercado de Covent Garden ainda funciona como mercado de frutas e legumes de verdade. A famosa transformação em destino turístico está a quinze anos de distância. Agora é autêntico, sujo e fascinante às 4h da manhã, quando os carregadores movem caixotes.
Os Beatles ainda estão juntos e ainda são amigos. Em poucos meses vão começar a gravar Magical Mystery Tour. Tudo parece possível.
Roteiro Noturno
Comece na Biba na Kensington Church Street (mudou-se para lá este ano) para fazer compras. O interior escuro e perfumado de incenso vende moda acessível para modelos e balconistas. Barbara Hulanicki criou uma estética total — art nouveau encontra o gótico vitoriano encontra a decadência.
Jantar no San Lorenzo em Beauchamp Place, onde a princesa Margaret janta entre estrelas do rock. Reserve com antecedência. Se for sofisticado demais, pegue fish and chips embrulhados em jornal em qualquer peixaria — ainda é a melhor refeição barata da Grã-Bretanha.
Drinks no The Speakeasy na Margaret Street, um clube privado frequentado por músicos. Flash um sorriso de entendido e vista a parte; talvez te deixem entrar. A jukebox é lendária.
Termine no Middle Earth em Covent Garden se for fim de semana, ou tente encontrar uma das festas improvisadas "freak out" que acontecem em casas ocupadas por todo o oeste de Londres. Siga a música e a turma bonita.
Dicas de Sobrevivência
Carregue dinheiro vivo. Cartões de crédito existem, mas são raros e suspeitos. Cheques de viagem funcionam nos bancos.
O sistema métrico ainda não chegou. Tudo é medido em milhas, stones, onças e guinéus.
A televisão tem três canais e desliga antes da meia-noite. O rádio é mais empolgante — estações piratas transmitem de navios no mar. A Radio Luxembourg oferece música pop depois que escurece.
A expressão "groovy" está em uso mas envelhecendo. "Fab" é muito começo dos anos 60. "Far out" funciona. "Man" pode terminar qualquer frase. "Square" significa chato. "Straight" significa convencional.
Quando perguntado sobre política, lembre-se: Harold Wilson é o Primeiro-Ministro (Trabalhista), os protestos contra o Vietnã estão crescendo, e a CEE (Comunidade Econômica Europeia) é um tema controverso — a Grã-Bretanha pediu adesão este ano, mas De Gaulle continua vetando.
Mais importante: seja jovem, seja bonito, seja o agora. A Swinging London acredita no momento presente. Ninguém está planejando para o futuro porque o futuro já chegou.
Londres 1967 pode estar há cinquenta e nove anos no seu passado, mas caminhando pela Carnaby Street com os Beatles no rádio e os jovens mais criativos do mundo em cada esquina, você vai entender por que chamaram de Verão do Amor. A festa não durou — a realidade econômica, a turbulência política e o simples esgotamento de uma revolução constante acabariam com ela antes do fim da década. Mas por um momento glorioso, Londres era o lugar onde o futuro estava sendo inventado. E você está convidado.
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