
Os Assassinatos a Machado de Lizzie Borden: Ela Realmente Fez Isso?
Os assassinatos a machado de Lizzie Borden em 1892 chocaram Fall River, Massachusetts. Um casal abastado morto a machadadas, a filha julgada e absolvida — mas quem foi o verdadeiro culpado?
"Lizzie Borden pegou um machado e deu quarenta golpes na mãe. Quando viu o que havia feito, deu mais quarenta e um no pai."
Essa cantilena macabra ecoa pela cultura americana há mais de um século, mas distorce os fatos. Abby Borden não era mãe de Lizzie — era sua madrasta. E as famosas "quarenta machadadas" foram, na realidade, dezenove golpes na cabeça de Abby, enquanto Andrew recebeu onze. Mas uma coisa a rima acerta: esse caso jamais foi solucionado.
Uma Casa de Ressentimentos Silenciosos
Fall River, Massachusetts, agosto de 1892. A residência dos Borden na 92 Second Street era uma casa respeitável, porém modesta — ao contrário da fortuna considerável de Andrew Borden, estimada em 300 mil dólares, cerca de 10 milhões nos valores de hoje. Andrew era notoriamente pão-duro; a casa ainda não tinha encanamento interno, o que era incomum para uma família abastada da época.
Dentro daquelas paredes vivia uma família sufocada por ressentimentos não ditos. Andrew, de 70 anos, havia se casado novamente três anos após a morte da primeira esposa. Suas filhas Emma, de 41 anos, e Lizzie, de 32, nunca simpatizaram com a madrasta Abby. Lizzie se recusava a chamá-la de "mãe", dirigindo-se a ela friamente como "Sra. Borden".
A tensão havia escalado nos meses anteriores. Andrew doara um imóvel a parentes de Abby, fazendo com que as filhas exigissem uma compensação. Uma briga acirrada em julho fez as duas irmãs fugirem para a casa de parentes. Elas voltaram apenas uma semana antes dos assassinatos — Lizzie tão a contragosto que ficou hospedada num quarto de pensão local por quatro dias antes de retornar a casa.
Mais estranho ainda: todos os moradores da casa haviam passado muito mal nos dias anteriores a 4 de agosto. Abby temia que alguém estivesse os envenenando.
A Manhã de 4 de Agosto
O dia 4 de agosto de 1892 era abafado e sufocante. John Morse, tio das irmãs, havia chegado na noite anterior para tratar de assuntos financeiros com Andrew. Após o café da manhã, Morse saiu para fazer recados enquanto Andrew partia para seu passeio matinal pelo centro da cidade.
Em algum momento entre 9h e 10h30, Abby Borden subiu ao andar de cima para arrumar a cama do quarto de hóspedes. Ela não desceu mais.
Seu assassino a atingiu primeiro na lateral da cabeça, fazendo-a virar e cair de bruços. Em seguida vieram mais dezoito golpes na parte posterior do crânio. Ela ficou ali, oculta de quem passasse, enquanto a vida na casa continuava no andar de baixo.
Andrew voltou por volta das 10h30. A porta da frente estava emperrada, e quando a empregada Bridget Sullivan finalmente a abriu, ela posteriormente testemunhou ter ouvido Lizzie rindo de algum lugar no andar de cima — algo desconcertante, pois o corpo mutilado de Abby estava à vista de qualquer pessoa no segundo andar.
Lizzie afirmou que sua madrasta havia saído para visitar um amigo doente. Andrew se deitou no sofá da sala para uma soneca.
Por volta das 11h, alguém aplicou um machado em seu rosto enquanto ele dormia. Dez ou onze golpes. Seu olho foi partido ao meio.
"Maggie, Venha Rápido!"
Pouco antes das 11h10, Bridget Sullivan ouviu Lizzie gritar lá de baixo: "Maggie, venha rápido! Meu pai está morto. Alguém entrou aqui e o matou."
A resposta policial foi caótica. As respostas de Lizzie mudavam constantemente. Primeiro ela disse que ouviu um gemido antes de entrar; duas horas depois, afirmou não ter ouvido nada. Ela mencionou o bilhete de Abby sobre o amigo doente — bilhete que jamais foi encontrado. Quando vizinhos perguntaram onde Abby poderia estar, Lizzie sugeriu que alguém subisse para verificar. Duas mulheres subiram e descobriram o corpo de Abby, frio e rígido, morta há quase duas horas.
Os policiais notaram o comportamento estranho de Lizzie — calma demais, composta demais para uma mulher que acabara de encontrar os dois pais assassinados. Mesmo assim, ninguém pensou em verificar se havia manchas de sangue em suas roupas. Seu quarto recebeu apenas uma busca superficial porque ela "não estava se sentindo bem".
No porão, a polícia encontrou dois machados, dois machadinhos e uma cabeça de machado com o cabo recém-quebrado, coberta com o que parecia ser pó e cinza aplicados deliberadamente.
O Julgamento Que Cativou a América
Lizzie Borden foi presa em 11 de agosto. Seu julgamento, no junho seguinte, tornou-se uma sensação midiática — o caso O.J. Simpson de sua época. Jornais de todo o país dedicaram colunas a cada detalhe: as macabras fotos de autópsia, os testemunhos contraditórios, a questão de como uma respeitável professora de escola dominical poderia cometer tamanha brutalidade.
O caso da acusação era em grande parte circunstancial. Lizzie estava em casa durante os dois assassinatos. Tinha motivo — a herança e o ressentimento acumulado contra a madrasta. E foi flagrada queimando um vestido dias depois, alegando que estava manchado de tinta.
Mas a defesa tinha armas poderosas. Não havia nenhuma arma do crime definitivamente vinculada ao delito. Nenhum sangue foi encontrado nas roupas de Lizzie. E a sociedade vitoriana simplesmente não conseguia conceber que uma mulher cristã e bem-criada pudesse cometer tamanha violência.
O júri deliberou por noventa minutos antes de proferir o veredicto: inocente.
Uma Vida em Suspenso
A absolvição não significou exoneração no tribunal da opinião pública. A sociedade de Fall River ostracizou Lizzie completamente. Ela e Emma usaram a herança para comprar uma mansão no bairro elegante da cidade, batizada por Lizzie, com certa insolência, de "Maplecroft".
Ela viveu ali por 34 anos, isolada e infame. As irmãs acabaram brigando — Emma foi embora em 1905 e elas jamais voltaram a se falar. Quando Lizzie morreu de pneumonia em 1927, aos 66 anos, Emma faleceu apenas nove dias depois.
Nenhuma outra pessoa foi jamais indiciada pelos assassinatos Borden.
Teorias e Especulações
Mais de 130 anos de investigações amadoras produziram inúmeras teorias:
Lizzie fez isso — A teoria mais popular. Ela tinha motivo, oportunidade e seu comportamento foi suspeito do início ao fim. Alguns especulam que ela cometeu os assassinatos nua, o que explicaria a ausência de roupas ensanguentadas.
Bridget Sullivan — A empregada tinha oportunidade, mas nenhum motivo aparente. Algumas teorias sugerem que ela e Lizzie agiram juntas, talvez como amantes em um relacionamento que poderia ter sido exposto.
John Morse — O álibi do tio era suspeito de tão detalhado, e as discussões de negócios com Andrew podem ter envolvido bens que afetariam a herança das filhas.
William Borden — O filho ilegítimo de Andrew, cuja existência veio à tona décadas depois. Seria que um escândalo familiar teria levado alguém ao assassinato?
Um invasor desconhecido — Apesar das portas trancadas, do curto intervalo de tempo e da ausência de sinais de arrombamento.
A Fascinação Sem Fim
Por que Lizzie Borden ainda nos cativa? Talvez pelo horror gótico do parricídio em um respeitável lar vitoriano. Talvez pela dinâmica de gênero — a ideia de que uma senhora comportada pudesse guardar tamanha violência desafiou tudo o que a sociedade do século XIX acreditava sobre as mulheres.
Ou talvez seja mais simples: odeamos mistérios sem solução. O caso Borden não oferece fechamento, apenas perguntas.
A casa na 92 Second Street é hoje uma pousada onde os hóspedes podem dormir nos mesmos quartos onde os assassinatos ocorreram. Visitantes relatam atividades paranormais — passos, sussurros, uma mulher chorando.
Talvez alguns segredos se recusem a ficar enterrados.
O machado que matou Andrew e Abby Borden jamais foi encontrado. Tampouco a verdade.
Para outros casos de violência familiar que cativaram uma nação — e jamais foram plenamente resolvidos — veja o caso Mary Phagan e Leo Frank e os assassinatos de Hinterkaifeck.
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